MASP e Instituto Ricardo Brennand se unem em mostra inédita de Degas


Pela primeira vez, um conjunto de obras originais de Edgar Degas (1834-1917) chega ao público pernambucano. A Pinacoteca do Instituto Ricardo Brennand, localizado no charmoso bairro da Várzea, no Recife, recebe “Degas/Borges”, fruto de uma parceria inédita entre o Instituto e o MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. A mostra permanece em cartaz até 10 de janeiro de 2027.

São 40 esculturas em bronze do artista francês, um dos nomes centrais do Impressionismo e conhecido sobretudo por suas representações de bailarinas. As peças, adquiridas pelo MASP na década de 1950 pelo diretor fundador Pietro Maria Bardi, estão entre as coleções de Degas mais importantes do mundo — ao lado de apenas outros três acervos de mesma dimensão, segundo o diretor artístico do MASP, Adriano Pedrosa: o Glyptotek, de Copenhague, o Metropolitan Museum, de Nova York, e o Musée d’Orsay, de Paris.

Foto/ Imagem: Ivelise Buarque

Entre os destaques está a “Bailarina de catorze anos” (1880), um dos marcos da história da escultura e retrato de Marie van Goethem, adolescente que ingressou aos 13 anos no balé da Ópera de Paris. Filha de uma lavadeira e de um alfaiate em dificuldades financeiras, Marie teve a trajetória atravessada pelas condições sociais da família e terminou afastada da instituição — um contexto que a exposição faz questão de recuperar.

É justamente nesse ponto que entra o olhar de Sofia Borges. Artista visual e curadora formada pela Universidade de São Paulo, com passagens pela Bienal de São Paulo e pelo MoMA, ela fotografou por um ano as esculturas do MASP, em busca de detalhes, volumes e gestos que normalmente passam despercebidos diante da obra original.

Ao comentar seu processo, Sofia descreve uma relação quase física com as peças: fala em uma vontade de tocar a mão da bailarina retratada, de permanecer um tempo junto dela — um gesto que, segundo ela, resume o próprio sentido do trabalho: não tanto atualizar a obra com um recorte específico, mas usar o distanciamento do presente para olhar para o passado e refletir sobre ele.

Essa aproximação também atravessa a leitura que a artista faz do corpo em Degas. Para Sofia, embora as esculturas — fundidas em bronze só depois da morte do artista, a partir dos originais em cera e argila que ele deixou em seu ateliê — sejam frequentemente vistas pela delicadeza e pela sensualidade das figuras, há nelas também uma crueza e um olhar atento às condições sociais das mulheres retratadas, moldado, ainda que dentro do machismo de sua época, por uma curiosidade genuína sobre o corpo que trabalha e que sofre.

Foto/ Imagem: Ivelise Buarque

A curadora e gestora cultural pernambucana Beth da Matta, responsável pela apresentação local da mostra, reforça essa camada contemporânea da leitura de Degas. Para ela, a força da exposição está justamente em somar, aos tempos históricos da obra, as novas camadas de sentido que a fotografia de Sofia traz — a sensibilidade, e até certo travo de dor, com que a artista fala do próprio processo de fotografar a bailarina. Beth destaca ainda que essa tensão entre delicadeza e crueza no corpo feminino segue atual: as mesmas barreiras observadas por Degas, diz, continuam presentes no mundo contemporâneo.

A experiência ganha ainda uma camada arquitetônica: as fotografias de Sofia Borges serão exibidas em grande escala sobre os cavaletes de cristal criados por Lina Bo Bardi para a sede do MASP, inaugurada em 1968 — hoje um dos símbolos mais reconhecidos do museu paulista e ganhando, pela primeira vez, uma nova paisagem em Pernambuco.

“Degas/Borges nos convida a olhar, olhar novamente e perceber que toda obra pode produzir novos sentidos quando colocada em relação com outros tempos, outros corpos e outros olhares”, resume Nara Galvão, diretora do Instituto Ricardo Brennand.

SERVIÇO
Degas/Borges — Instituto Ricardo Brennand
Período: Até o dia 10 de janeiro de 2027
Local: Pinacoteca do Instituto Ricardo Brennand, Recife (PE)
Visitação: terça e quarta, das 13h às 17h; quinta a domingo, das 10h às 17h
Ingressos: a partir de R$ 30 (meia-entrada) — bilheteria do Instituto ou pelo link https://shre.ink/GgqD
Realização: Instituto Ricardo Brennand e MASP
Apresentação: Bradesco, por meio da Lei Rouanet
Patrocínio: Bradesco e Cimento Nacional
Curadoria MASP: Adriano Pedrosa e Fernando Oliva
Apresentação local: Beth da Matta


Informações da Assessoria - Foto/ Imagem de Destaque: Ivelise Buarque


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